Brasil

Covid-19: A doença que saiu da classe alta e se alojou na classe baixa brasileira

Dados do funcionamento do mercado trabalho no país durante o surto global mostram que a classe baixa foi a mais afetada e os ricos se ampararam nas suas óbvias riquezas.

Micael Levi
camera_alt Agência Freelancer/Folhapress

A doença respiratória provocada por um coronavírus, a Covid-19, foi identificada primeiramente em pessoas pertencentes a classe alta ou popularmente conhecida: os ricos brasileiros. O primeiro caso no país foi confirmado em um idoso de 61 anos vindo da Itália.

As infecções começaram a aparecer na população de classe alta no Brasil e amparados economicamente. Em seguida, começou a atingir o público mais indefesso: os pobres.

Sem muita renda e com as medidas bastantes duras anunciadas pelos governadores, eles ficaram sem renda e completamente vulneráveis ao vírus. Estudos apontam que os mais pobres foram os mais afetados pela pandemia de covid-19 tanto na saúde quanto pelas condições socioeconômicas.

Dados do funcionamento do mercado trabalho no país durante o surto global mostram que a classe baixa foi a mais afetada e os ricos se ampararam nas suas óbvias riquezas.

Os números da Pnad Covid-19 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), explana essa indiferença. Cerca de 28% dos membros da classe A/B (renda domiciliar superior a R$ 8.303) puderam alterar o local de trabalho, ou seja, puderam escolher home office (trabalhando em casa).

Na classe C (com renda entre R$ 1.926 e R$ 8.303) 10,3% fizeram isso. Somente 7,5% dos integrantes da classe C (aqueles que possuem renda de até R$ 1.926) tiveram o privilégio de trocar o ambiente de trabalho. Entre os impossibilitados dessa categoria estão funcionários de supermercado, vendedores e frentistas de postos, estes são 95% que não puderam trocar o ambiente de trabalho.

Ainda na questão de trabalhos, uma pesquisa da Fundação Seade aponta que os trabalhadores com menor grau de escolaridade foram os mais afetados. São estes os trabalhadores da construção civil e aqueles que trabalham por conta própria os chamados autônomos, que representa 63% que tiveram a redução de renda, parcela que corresponde a 27% entre os assalariados.

De acordo com o sociólogo Afonso Pola, a pandemia afetou a todos, mas de forma desequilibrada. Os impactos são maiores onde existem grau de escolaridade baixo e, principalmente, a desigualdade social está presente de forma muito acentuada.

“O teletrabalho e o home office só são realizados em atividades em que você não precisa estar fisicamente em um lugar. Aconteceu isso com pessoas que trabalham em escritórios, na área administrativa. Mas as atividades menos qualificadas, com pessoas de baixa escolaridade, o home office não é possível e as pessoas não são qualificadas para fazê-lo”, disse.

Alvos mesmo com auxílio

Quando a pandemia fugiu do controle da medicina e das autoridades políticas, foi necessário a criação de um auxílio que ajudasse os mais afetados, que inclui os trabalhadores e as famílias com baixa renda. A criação junto com a decisão de um valor para o auxílio emergencial em 2020 amparou os vulneráveis.

No ano passado, a assistência foi distribuída para 66 milhões de pessoas que receberam entre abril e dezembro valores a partir de R$ 600, e posteriormente reduzido para R$ 300. Com a nova rodada que abrange 45,6 milhões segundo a Caixa Econômica Federal, o valor foi reduzido radicalmente para R$ 250, em média. A ajuda está prevista para durar quatro meses.

Mesmo com o pagamento do auxílio, os alvos da insegurança alimentar no Brasil estão com maioria o público beneficiário do programa social Bolsa Família (88,2%). É o que revelou a pesquisa elaborada pelo Instituto Pessan (Rede Brasileira em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), expondo a quantidade de 116,8 milhões de pessoas que conviveram com algum grau de insegurança alimentar nos últimos três meses de 2020.

Já um estudo feito pelo Grupo de Pesquisa Alimento para a Justiça: Poder, Política e Desigualdade Alimentares na Bioeconomia, com sede na Universidade Livre de Berlim, aponta que 59,3% não tiveram alimentação adequada desde o início da pandemia. O grupo realizou a pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação alimentar no Brasil”.

De acordo com o Pnad 2017-2018 (Programa Nacional por Amostra de Domicílios), 37,7% dos brasileiros estavam com algum grau de insegurança alimentar, sendo que destes, 4,6% estão na categoria grave, ou seja, passam fome. Esses dados lançaram luz na fome que a população brasileira vive.

Enquanto a fome escolhe os mais pobres a covid-19 também faz suas vítimas na classe. Um trabalho realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostrou que 79,6% dos óbitos relacionados a doença no Rio de Janeiro ocorreram nas áreas mais pobres.

Dados da FGV Social mostra que os estados Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e São Paulo foram estados mais afetados em quedas de ocupação. Esses dados revelam como a covid-19 se alojou na população que mais precisa trabalhar mesmo durante sua circulação.